Medalhas e entrevista com o atleta Clip Danilo Glasser

O nadador americanense Danilo Glasser (Unimed / Bridgestone) fechou sua participação no Mundial Master que aconteceu na Austrália de 9 a 18 deste mês com chave de ouro.Entrevista DANILO GLASSER
Danilo Glasser nasceu em São Paulo no dia 23 de março de 1977. Porém sempre morou em Americana, cidade onde cresceu e estudou, se formou e iniciou sua vida esportiva.
Começou a nadar por volta dos 4 anos. Sempre gostou de vários esportes. Jogou um pouco de futebol, tênis, basquete, vôlei, judô e natação. A escalada de vitórias de Danilo Glasser, iniciou-se em 1997, logo após saber do esporte paraolímpico, com muito apoio e incentivo dos pais e da então namorada e hoje esposa, Karina, voltou a nadar e logo na primeira competição paradesportiva conquistou 5 medalhas de ouro estabelecendo as melhores marcas do Brasil em todas elas. Tempos inclusive que o credenciaram para disputar sua primeira competição internacional. Em 1998 pela primeira vez na seleção brasileira, disputou o Campeonato Mundial Paraolímpico de Natação na Nova Zelândia e na final dos 50 metros Livre estabeleceu índice para disputar as Paraolimpíadas de Sydney 2000. Atleta patrocinado pela Academia Clip de Americana, Danilo concedeu essa entrevista exclusiva. Acompanhe abaixo:
.Quando e por que você decidiu ser um nadador?
Danilo: Eu aprendi a nadar com 3 anos de idade. Profissionalmente comecei a competir no ano de 1997 em um torneio regional disputado na Cidade de Bauru. Ganhei cinco provas e bati o recorde brasileiro da época. Foi um começo promissor, uma prévia do que estava por vir ao longo da minha carreira.
Algum dia você achou que a sua deficiência pudesse impedir este sonho?
Danilo: Não. Muito pelo contrário. Foi a natação que me ajudou a superar muitas dificuldades impostas pela deficiência e a valorizar-me também. Na adolescência eu tinha vergonha de algumas limitações. Não podia usar os tênis que os meus amigos usavam, não tinha a mesma mobilidade. O esporte me ajudou a superar os obstáculos da deficiência, me ajudou a enfrentá-la.
Apesar do seu bom retrospecto em Olimpíadas (duas medalhas de bronze), Jogos Pan-Americanos (9 medalhas de ouro, 1 de prata e duas de bronze) e Mundiais (1 medalha de prata e duas de bronze) você acredita que ainda falta reconhecimento?
Danilo: Tenho certeza. Eu fui eleito pelo COB (Comitê Olímpico Brasileiro) o melhor atleta Paraolimpico no ano de 2001, quando competia pela cidade de Americana e o que a cidade fez por mim? Nada. Eu quero apoio porque o meu sonho é estar competindo nas Olimpíadas de Londres, em 2012. Mas não é só para o Danilo que falta apoio, outros atletas de alto nível da cidade como a Ana Flávia e o Daivilin (Bicicross) não recebem o reconhecimento que merecem. Nós enaltecemos o nome de Americana e os governantes não conseguem enxergar isso.
Nas últimas décadas o governo criou vários programas de incentivo ao desporto para olímpico. O que ainda falta para o Brasil ser uma referencia?
Danilo: O Brasil é uma referencia quando o assunto é desporto Paraolímpico.O Andrew Parsons (Presidente do CPB) há duas semanas esteve na Alemanha apresentando o nosso projeto. Em Pequin o Brasil foi eleito o país mais organizado do mundo. São seis medalhas de ouro em Atenas, nove em Pequin, isso sem contar as outras de prata e de bronze. Não é para qualquer um. Nós somos um exemplo claro de evolução.Somos o primeiro país do mundo a receber o Incentivo Fiscal do Governo Federal (Bolsa Família). Este incentivo visa beneficiar diretamente a pessoa física, ou seja, o dinheiro vai para o atleta. São R$ 2.500 reais mensais durante o período de quatro anos, caso o atleta esteja participando do Ciclo Olímpico. A Espanha copiou esse modelo e outros países também estão aderindo.
Você já está totalmente recuperado da lesão no ombro esquerdo? Como foi o processo de recuperação?
Danilo: Hoje posso dizer que estou 100% recuperado. Foi a primeira vez que realmente me preocupou. A lesão era gravei e até pensei em parar. O problema foi em um músculo que faz o principal movimento da braçada. Ele descolou do osso e eu precisei de muito empenho e força de vontade. Fiz um trabalho intensivo para voltar, com várias seções de fisioterapia. Em março, voltei a nadar na Travessia dos Fortes no Rio de Janeiro e este mês (Setembro), em Fortaleza, consegui melhorar a marca (estabelecida em 2002) nos 100 e nos 50 metros livres. Com essa lesão tive pouco tempo para treinar esse ano, mas, em 2010 vou conseguir me preparar melhor.
O seu principal objetivo neste ano é o Campeonato Mundial de Piscina Curta, que será disputado em novembro, no Rio de Janeiro. Quais os principais concorrentes que você irá enfrentar e qual colocação você almeja?
Danilo: É difícil falar em principais concorrentes porque a prova é muito competitiva. São 32 atletas sendo que 20 entram com chances reais de estar na final. Não basta estar bem treinado. É preciso estar em um bom dia, psicologicamente bem. Posso destacar como adversário o André Brasil Esteves, atual líder do ranking e também um nadador canadense que figura entre os três primeiros. Estou com o 4º melhor tempo do mundo e por isso estou confiante.
Como você foi recebido pela Clip Academia?
Danilo: Da melhor forma possível. Eu já conhecia o Willian Barbosa e cheguei a nadar com o Ronaldo Nogueira. Eles me incentivaram muito. Inclusive a academia está me ajudando a angariar fundos para bancar a minha viajem para a Austrália, onde vou disputar o mundial em Outubro.Eu precisava de R$ 4.000 e a Prefeitura só me forneceu R$ 1.500. O pessoal da Clip conseguiu um apoio financeiro e graças a Deus vai dar tudo certo.
Como foi a volta para a Seleção Brasileira?
Danilo: Fiquei emocionado. Em Pequim trabalhei na Sportv (Canal à cabo de esportes da Rede Globo) como comentarista. A saudade era enorme, porque eu via meus companheiros competindo e eu estava de fora. O reconhecimento deles foi muito grande. Todos torceram pela minha volta, afinal tenho uma história na Seleção. Defendi as cores do Brasil durante dez anos (de 1995 a 2005) e fiquei de fora das Olimpíadas por muito pouco, já que consegui a terceira colocação no ranking (apenas os dois primeiros se classificam). Agora é trabalhar duro. A primeira seletiva do ranking começa já na Holanda.
Você já pensa em parar?
Danilo: Já pensei. Penso direto, mas não quero. O Geovanni, meu filho, não deixa e isso faz com que eu ganhe forças para continuar competindo. Às vezes penso na família, tenho dois filhos pequenos (Geovanni de 9 anos e Ana Luiza de 3 anos) e fico muito tempo longe deles por causa das provas. Além disso, tem a questão da alimentação que é muito rígida. Eu adoro refrigerante, pizza, lanche e tenho que me controlar. Eu acho que até 2012, 2013 consigo me manter. Depois disso vou parar de competir, mas, deixar a natação jamais. Penso em ser treinador e desenvolver um trabalho social visando principalmente os atletas com algum tipo de deficiência.
Qual o conselho que você daria a uma criança que pretende seguir no esporte?
Danilo: O meu conselho é que essas pessoas não desistam nunca. Durante a minha infância, por um momento, eu desisti, mas depois me arrependi profundamente. Tinha vergonha da deficiência e até por isso não tinha muitos amigos, acabava me escondendo atrás de indivíduos de mal-caráter. Recebi apoio da minha família, da Carina (esposa) e dei a volta por cima, superei tudo que poderia restringir-me de realizar o meu maior sonho: ser um nadador profissional. Hoje em dia são poucas as crianças que praticam esporte, geralmente elas dão mais tempo ao vídeo-game, aos brinquedos eletrônicos. O esporte tem que ser estimulado pelas instituições educacionais, pela família. Para quem deseja seguir carreira o que eu sempre falo é que “Campeão é um só, mas a medalha não é tudo o que vale. Persistência e dedicação são pontos fundamentais”.














